Brasil - Brasília - Distrito Federal - 11 de janeiro de 2025
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Em ‘Ferida’, ativista se abre, expõe o luto e busca por si mesma, lésbica, na Rússia

Mais do que um romance sobre luto

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A Rússia criminaliza e hostiliza movimentos e pessoas LGBTQIA+, persegue ativistas e há décadas torna quase clandestina qualquer expressão de afeto que escape da norma cis e heterossexual. É nesse contexto que surge “Ferida”, livro de estreia em prosa da escritora russa Oksana Vassiákina, publicado pela primeira vez em 2021, e que chegou ao Brasil em setembro, pela editora Fósforo. O romance parte da morte da mãe para tocar em lesões coletivas: luto, herança do autoritarismo e violência contra corpos dissidentes.

“A tarefa principal de qualquer pessoa que escreve é, antes de tudo, estética”, diz a autora à reportagem. “Depois vem essa borda entre a autoterapia e a arte.” Escrito entre o impulso da perda e a tentativa de compreendê-la, “Ferida” se constrói na contradição entre o pessoal e o político, o corpo e a palavra, a dor e o gesto de transformá-la em literatura. Para Oksana, escrever foi não só um modo de se curar, mas de criar uma moldura possível para a dor. “A literatura não é feita para deixar as coisas mais leves. Ela cria um espaço onde a tristeza pode existir.”
A relação com a mãe, que atravessa o romance, é marcada por uma espécie de amor que só é compreendido quando não há mais tempo para dizê-lo. Oksana descreve a figura materna como uma ferida inseparável. Não por não ter sobrevivido, mas por ter existido. “As relações são, antes de tudo, a separação e a impossibilidade de se separar”, afirma. Em “Ferida”, o corpo da mãe é um entrelaçado de lembrança, espelho e prisão. É uma presença física que continua a habitar a narradora mesmo depois da morte. Uma narradora-personagem que, mesmo ao final do livro, se confunde com a própria autora.

Nada pode transformá-la em vazio. Ela vai ficar lá, jazendo dentro de mim em seu caixão cintilante. Como se fosse um de meus órgãos, inseparável e imprescindível. Parece que é isso mesmo. Ela é minha ferida inseparável.

Trecho do livro ‘Ferida’
No centro desse flerte entre autobiografia e autoficção, há uma imagem que se repete: o umbigo. Oksana o descreve como uma marca do que nunca se rompe. “O umbigo é o lugar onde algo foi cortado, mas a ferida permanece.” No texto, diz Oksana, o umbigo é também uma tentativa de dar forma ao indizível, um ponto em que a biologia se confunde com a lembrança e o afeto se transforma em matéria.

Essa imagem se reaproxima sempre que a narradora-personagem-autora tenta se afastar da mãe e, de maneira quiçá paradoxal, encontra nela o sentido da continuidade. O umbigo, como a própria escrita, é o que restou de uma comunicação interrompida depois de sua morte. Em “Ferida”, esse fio não é apenas corporal. É também histórico, feminino e político. É, segundo Oksana, o elo entre o que se tenta esquecer e o que insiste em permanecer.

A metáfora pela qual o leitor se envolve fez parte da vida da autora. Ela conta à reportagem que, durante anos, acreditou ter algo preso no umbigo, “um pedaço da mãe”, e pensou em recorrer a uma cirurgia para removê-lo. Em 2024, começou a praticar esportes intensamente e percebeu que um pequeno pedaço daquele corpo estranho, aos poucos, secava. “Exatamente no dia do aniversário da minha mãe, consegui tirá-lo com as próprias mãos”, diz. Para Oksana, o gesto simbolizou também o nascimento de um novo corpo. O seu próprio.

Cinco anos após a morte da mãe, esse corpo simbólico se mistura à escrita. “Foi só então que comecei a adquirir um corpo meu.” A literatura de Oksana, nesse sentido, não busca ser uma forma de reconstruir o passado, mas de transformá-lo. Ao escrever, ela cria espaço para existir fora do espelho da mãe. E, antes disso, fora da imagem idealizada que, segundo a autora, a sociedade russa ainda impõe às mulheres.

Em meio à hostilidade crescente no país, Oksana decidiu permanecer. “Eu escolhi ficar. Muitos emigraram, mas para mim essa decisão foi consciente e de grande valor”, afirmou. Hoje, mesmo despois de muitos amigos se exilarem após a guerra da Ucrânia, vive de forma quase isolada no extremo oeste do país, e diz se tratar também de uma questão de segurança. Após ser lançado, em 2021, a obra foi recolhida de livrarias porque, junto de tantas outras, foi tachada de feminista e instigadora do movimento LGBTQIA+.

Ainda assim, “Ferida”, que é o primeiro de uma trilogia já publicada em russo, é um marco no contexto literário pós-soviético e de uma nova geração de textos autoficcionais, que abrem espaço para uma cena mais íntima, política e sem medo do corpo. “Surgiram muitos textos de autoficção”, ela reconhece. “Eu tentei sintetizar duas tradições, a europeia e a russa, e criar um livro que mostrasse que as lésbicas também são pessoas, também amam, também sentem dor.”
Mais do que um romance sobre luto, “Ferida”, diz Oksana, versa ao redor de uma pragmática que une um âmbito de cura -pessoal, familiar e coletiva-, um ato de resistência do existir, e um espaço de visibilidade feminista e lésbica. É um registro de memória sobre a mãe de Oksana e, no cenário expandido que a autora descreve, um lugar em que é possível lembrar, refletir e escrever sobre o próprio corpo como território de censura.

FERIDA
– Preço R$ 89,90 (248 páginas)
– Autoria Oksana Vassiákina
– Editora Fósforo
– Tradução Diego Moschkovich

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