MARIANNA HOLANDA E RAPHAEL DI CUNTO, SÃO PAULO, SP, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O advogado-geral da União, Jorge Messias, já começou a procurar líderes do Senado para marcar conversas e diminuir resistência à sua indicação para a vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), oficializada na quinta-feira (21) pelo presidente Lula (PT).
Membro da Igreja Batista e diácono de uma congregação em Brasília, ele conta com apoio importante da parte do mundo evangélico, apesar da resistência das alas mais ligadas ao bolsonarismo. Mas o maior empecilho é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) -que não apenas é contrário à indicação como tem dito a interlocutores que trabalhará contra.
Horas depois de seu nome ter sido oficializado, Messias ligou para líderes para marcar reuniões na próxima semana, em especial para quem demonstrou resistência à sua indicação.
Um deles foi o líder do MDB, Eduardo Braga (AM). “Ninguém do governo me procurou sobre esse tema. Quem me ligou foi o próprio Messias. Tenho boa relação com ele. Não perguntou nada, pediu para falar pessoalmente. Estarei em Brasília na próxima semana, ele tem que me procurar.”
Braga, assim como Alcolumbre, preferia que Lula tivesse indicado o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga. Ele evitou fazer previsões de placares ou prazos, mas admitiu que a situação para o AGU não é fácil na Casa. “O mar não está para peixe”, resumiu.
Outro líder falou, reservadamente, que sem o apoio de Alcolumbre ou de Pacheco, Messias não conseguirá chegar nos 41 votos necessários do plenário. Há uma queixa entre senadores sobre uma dificuldade na interlocução com o governo, que foi agravada com a decisão de Lula de preterir Pacheco.
Além do próprio Messias, integrantes da articulação do governo começara, a fazer telefonemas e a buscar senadores para conversas, em especial os de oposição. Eles reconhecem a dificuldade, mas dizem que poderá ser ultrapassada.
Um auxiliar palaciano reconheceu que a pauta-bomba anunciada pelo presidente do Senado após a indicação de Messias é retaliação, mas disse que o PL Antifacção, por exemplo, teve a indicação de um relator que não era de oposição, o que foi um alívio para o Planalto. Alessandro Vieira (Cidadania-SE) é considerado equilibrado por governistas.
Lideranças evangélicas nos estados, sobretudo ligadas à Assembleia de Deus, também entraram no circuito para pedir votos pelo “irmão”, como o chamam nas conversas com os parlamentares.
Na avaliação de governistas que atuam pelo nome do AGU na Casa, esse movimento é especialmente importante devido à proximidade com as eleições no ano que vem. O apoio das igrejas é considerado vital para a campanha de parlamentares.
O bispo Samuel Ferreira, por exemplo, presidente da Assembleia de Deus do Brás, publicou uma foto nas redes sociais de quando esteve recentemente no Planalto com Lula e Messias e comemorou a indicação. “Lula, muito obrigada. Messias, Deus é contigo. Parabéns, mas a luta continua”, escreveu.
Já o presidente do Republicanos e deputado federal Marcos Pereira (SP) disse que Messias preenche os requisitos exigidos pela Constituição. “E tenho certeza que será um grande ministro, dignificando o tribunal”, afirmou. O líder do partido no Senado, Mecias de Jesus (RR), foi um dos primeiros a declarar apoio ao AGU, destacando valores como a “defesa da família e dos princípios cristãos”.
Messias também já procurou o senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da bancada evangélica no Senado, para pedir apoio à sua indicação.
Em outra frente, o ministro do STF, André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro (PL) como “terrivelmente evangélico”, parabenizou a indicação e disse que buscará diálogo no Senado por ele. Em 2021, ele foi aprovado após Alcolumbre fazer da sua nomeação um cabo de guerra com o Planalto e segurá-la por quatro meses.
É da prerrogativa do presidente do Senado enviar a indicação para sabatina na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), assim como cabe ao presidente da República indicar quem quiser. De acordo com a assessoria, Alcolumbre disse que “analisará os próximos passos, dentro das prerrogativas do Senado Federal – cada um dentro das suas próprias prerrogativas”.
Procurado, o presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), disse não haver prazo ainda para análise e que, apesar de apoiar Messias, depende do encaminhamento de Alcolumbre. “Pauto para votar dentro de um prazo que seja aceitável, inclusive para que o indicado possa percorrer gabinetes. Minha parte é regimental”, disse.
À coluna Painel a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) disse querer que o Senado analise ainda neste ano o nome de Messias.
Inicialmente, Alcolumbre disse a aliados que deixaria Messias sem sabatina até 2026, seguindo o que fez com Mendonça em 2021. Mas a avaliação é de que a estratégia pode agora mudar, acelerando os procedimentos, não dando tempo de o indicado buscar votos. Hoje, senadores acreditam que ele não tem os apoios necessários.
Para um auxiliar palaciano, seria até melhor para Messias se a sabatina ficasse para o ano que vem, porque daria mais tempo de distensionar o clima com os senadores.
Além das críticas de interlocução, há também já uma importante parcela da Casa que faz flagrante oposição ao governo e a Messias. Ele não é unanimidade entre os evangélicos, sobretudo entre os mais bolsonaristas.
Jorge Seif (PL-SC), por exemplo, disse que “a fé cristã não serve como escudo para práticas incompatíveis com o Evangelho”. O tom de que Messias não pode ser visto como um defensor da Bíblia porque é petista e amigo de Lula será utilizado por esses parlamentares críticos à sua atuação.
“Com a indicação de Jorge Messias para o STF, caso ele seja aprovado pelo Senado, serão mais 30 anos de um esquerdista petista julgando e atrasando o Brasil com seus valores de esquerda”, disse o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ).
Indicação de Messias ao STF estremece relação do governo com Senado
CAIO SPECHOTO, MARIANNA HOLANDA E VICTORIA AZEVEDO, BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) deve estremecer a relação do governo com o Senado, principal fonte de governabilidade de Lula (PT) neste mandato até o momento.
O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e uma parcela dos parlamentares preferia que o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) tivesse sido indicado. A interlocutores, após oficializada a decisão de Lula, Alcolumbre demonstrou insatisfação.
Havia expectativa de que o presidente telefonasse para informá-lo antes de a notícia tornar-se pública, o que não ocorreu, de acordo com a assessoria de imprensa de Alcolumbre.
Horas após a indicação de Messias, o presidente do Senado anunciou que levará ao plenário na próxima semana um projeto com potencial de impacto de bilhões de reais para as contas públicas, sobre a aposentadoria especial dos agentes comunitários de saúde e dos agentes de combate às endemias.
Alcolumbre já indicou que não deve trabalhar pela aprovação do nome do advogado geral para a vaga no Supremo. Messias, por sua vez, recebeu o apoio público do ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro.
Primeiro integrante da corte a cumprimentá-lo publicamente pela indicação, ele disse que ajudará o chefe da AGU (Advocacia-Geral da União) no diálogo com senadores.
O desgaste da gestão petista com o Senado atinge especialmente o líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT). Tanto pelo cargo que ocupa quanto por ser amigo de Lula há décadas, Wagner é um dos principais canais de comunicação entre o Palácio do Planalto e a cúpula da Casa. Ele também é um dos maiores defensores da indicação de Messias para o STF. O advogado-geral da União trabalhou em seu gabinete no passado.
Além da discordância sobre a indicação, Alcolumbre ficou incomodado com uma fala proferida por Wagner à imprensa. O líder do governo expôs que o presidente do Senado, em conversa com Lula, tinha demonstrado preferência por Pacheco -e que o chefe do governo federal estava decidido por Messias.
Senadores próximos de Alcolumbre relatam que ele chegou a deixar de atender a telefonemas de Wagner. A Folha de S.Paulo tentou contato com o líder do governo e com o presidente do Senado, mas não obteve resposta.
A preferência de Lula por Messias é de conhecimento do mundo político há semanas, mas ganhou ainda mais relevância na segunda-feira (17). Naquele dia, o presidente da República teve uma conversa final com Rodrigo Pacheco e o informou que escolhera outro nome para a indicação ao STF, como revelou a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.
Na terça-feira, Alcolumbre demonstrou seu descontentamento publicamente pela primeira vez. “Tem que esperar [a indicação para o STF chegar ao Senado], fazer o quê? Se eu pudesse, eu fazia a indicação”, disse a jornalistas.
A tensão entre governo e Senado causada pela indicação de Messias ainda pode aumentar. Líderes de bancada têm demonstrado, nos bastidores, disposição para insistir no nome de Pacheco. O ex-presidente do Senado é o nome favorito da maioria da Casa, não só de Alcolumbre.
Lula, por sua vez, não abre mão de Messias. Ele julga a escolha uma prerrogativa da Presidência da República que não deve estar sujeita a pressões externas.
A indicação cabe a Lula, mas seu escolhido só assumirá o posto de ministro do STF se houver aprovação do Senado. Primeiro, ele deve ser sabatinado e aprovado pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). E, depois, são necessários ao menos 41 votos favoráveis no plenário da Casa. O voto é secreto.
A última vez que os senadores rejeitaram a indicação de um presidente da República para a corte ocorreu no final do século 19.
Na última semana, a votação apertada que os senadores deram a favor da recondução de Paulo Gonet como procurador-geral da República foi interpretada por políticos e ministros do STF como um recado a Lula sobre a indicação de Messias. Gonet teve 45 votos, só 4 a mais do que precisava. Foi o placar mais apertado para um procurador-geral desde a redemocratização, nos anos 1980.
A avaliação no Senado é que Gonet correu risco de ser rejeitado, apesar de ser benquisto pela maioria dos senadores. Pesou contra ele a atuação para condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como líder da trama golpista que tentou impedir a presidência de Lula.
Gonet foi aprovado depois de uma mobilização de líderes da Casa. Alcolumbre foi decisivo para garantir o mínimo de votos necessários para o PGR obter mais dois anos de mandato, mas indicou que não deve adotar a mesma conduta com Messias.
Apesar disso, o líder do PT na Casa minimizou o placar. “Havia um grupo forte de oposição a ele [Gonet] pelo fato de ele ter feito a denúncia ao ex-presidente da República. No caso do Messias, não vejo ele arestado com nenhum segmento aqui dentro do Senado”, afirmou Wagner.
‘NOVO DINO’ E APOIO DO REPUBLICANOS
Além da preferência por Pacheco, pesa contra Messias o receio de senadores de que ele se torne um “novo Flávio Dino”, como alguns políticos dizem reservadamente.
Dino também foi uma escolha pessoal de Lula. Uma vez no cargo, o ministro passou a dar decisões que fiscalizam emendas parlamentares e restringem seu uso. A atitude revoltou senadores e deputados, que têm nesse mecanismo a principal forma para enviar recursos públicos para obras em suas bases eleitorais.
A vaga no STF foi aberta depois de o agora ex-ministro Luís Roberto Barroso antecipar sua aposentadoria. Ele poderia ficar no tribunal até os 75 anos, mas decidiu deixar o posto com 67, após de concluir seu mandato como presidente da Corte.
A indicação de Messias foi celebrada por petistas, criticada por bolsonaristas, e defendida por alguns integrantes do centrão.
“No processo de apreciação de seu nome pelo Senado Federal, o ministro Messias terá oportunidade de comprovar sua qualificação para a mais alta corte do país, demonstrada à frente da AGU e ao longo de sua carreira no campo do Direito e da Administração Pública”, disse a ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais).
Já o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), disse que a indicação “reforça o compromisso com a defesa da Constituição, o fortalecimento da Democracia e a estabilidade das instituições brasileiras”.
O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido de Jair Bolsonaro na Câmara, disse que, se o Senado aprovar o AGU, “serão mais 30 anos de um esquerdista petista, julgando e atrasando o Brasil com seus valores de esquerda”.
“O fato de ser evangélico não é escudo: o Evangelho prega justiça, não perseguição e seletividade. STF exige independência, não mais partidarismo”, afirmou o senador Jorge Seif (PL-SC).
O líder do Republicanos na Casa, Mecias de Jesus (RR), por sua vez, disse defender Messias por sua competência, sólida formação, e por ser alguém que preserva valores com os quais comunga, como a defesa da família e dos princípios cristãos. “Sua qualificação técnica supera debates ideológicos”, afirmou.
Messias consolida mudança de critério de Lula e perfil político do STF
ANA POMPEU, BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A indicação de Jorge Messias pelo presidente Lula (PT) para a vaga aberta no STF (Supremo Tribunal Federal) consolida a tendência de perfil mais político da corte.
Antes mesmo do anúncio, realizado nesta quinta (20), a lista de cotados já indicava a mudança na forma como Lula tem feito suas escolhas para o tribunal. Neste mandato, o presidente indicou os ministros do STF pela proximidade e confiança pessoal que deposita neles, além do alinhamento de princípios.
Com a saída de Luís Roberto Barroso, aposentado de forma antecipada em outubro, os nomes mais cotados não incluíram juristas reconhecidos, advogados renomados ou figuras com longa e forte carreira jurídica, como desembargadores ou ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça).
Nas duas últimas vagas preenchidas, Lula escolheu dois nomes de sua confiança: Cristiano Zanin, que foi seu advogado, e Flávio Dino, que foi juiz por 12 anos antes de ocupar cargos eletivos desde 2007.
Um interlocutor do STF ouvido sob reserva afirma que a avaliação é a de que a era dos juristas na corte passou. Ainda que com razões jurídicas nas decisões, as repercussões políticas são cada vez mais consideradas, com os julgamentos se tornando mais políticos.
Pesam para isso os reveses que Lula e o PT tiveram com escolhas anteriores, depois de julgamentos do mensalão e da Lava Jato, incluindo as decisões que acarretaram em sua prisão por 580 dias -depois anuladas por suspeição do então titular da 13ª Vara de Curitiba, Sergio Moro, no processo.
Esses grandes processos se somaram também ao caso da trama golpista de 2022 e mudanças na correlação de forças entre os três Poderes para projetar ainda mais o Supremo para a cena política.
O chefe da AGU (Advocacia-Geral da União) se tornou o preferido após se consolidar como a principal referência jurídica do governo, chamado pelo presidente a opinar inclusive em temas políticos.
Messias era o principal nome para assumir a cadeira do Supremo desde que Barroso anunciou a antecipação de sua aposentadoria. O ministro da AGU, no entanto, enfrentava a resistência de ministros do STF, que preferiam a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para a vaga.
O favoritismo ocorreu também pelo papel como interlocutor do governo com os evangélicos, segmento que apoia majoritariamente o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Fiel da Igreja Batista, Messias é diácono de uma congregação em Brasília e inclui trechos bíblicos em discursos e publicações de redes sociais. Foi o único AGU a representar o presidente na Marcha para Jesus.
Messias não é filiado ao PT, mas também construiu carreira e conquistou confiança pela atuação junto a quadros da sigla, desde que foi consultor jurídico de ministérios. No governo Dilma Rousseff, foi subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil.
Assim, o perfil dele é considerado híbrido entre o direito e a política, por juristas e integrantes do governo.
Já Pacheco, ex-deputado e ex-presidente do Senado, é um nome direto da política. Ele construiu nos últimos anos relação de proximidade com boa parte dos ministros do STF -ainda que tenha feito acenos ao bolsonarismo no governo anterior.
Pacheco passou a frequentar a casa de ministros quando se tornou presidente do Senado e barrou pedidos de impeachment de integrantes da corte, o que o fez manter bom trânsito no Judiciário mesmo após deixar a presidência da Casa -o mandato de senador vai até janeiro de 2027.
Lula quer que ele concorra ao Governo de Minas Gerais, mas a tendência é que o mineiro deixe a vida pública e volte a atuar exclusivamente como advogado.
Nos três mandatos, contando com Messias, Lula indicou 11 ministros do STF. Nos dois primeiros governos, o presidente costumava ouvir seu então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para definir as vagas. Nelson Jobim (ex-Defesa) e Tarso Genro (ex-Justiça), além de José Dirceu (ex-Casa Civil), também eram consultados. Agora, a decisão não é mais terceirizada.
Durante a primeira temporada no Palácio do Planalto, entre 2003 e 2011, dos três primeiros nomes, o presidente se reuniu apenas com um deles antes da definição: Carlos Ayres Britto. Lula não chegou a conhecer pessoalmente Cezar Peluso ou Joaquim Barbosa antes do anúncio.
Em décadas anteriores, apesar do apoios políticos, a relevância de candidatos no mundo do direito indicava ser fator de peso.
Mesmo quem não era acadêmico, como Rosa Weber, vinha de tradição da respeitabilidade adquirida no meio jurídico. Já Barroso era um destacado professor de direito constitucional e se tornou conhecido por sua atuação acadêmica e profissional no direito.
Uma das exceções foi Dias Toffoli, que fez carreira como advogado de sindicatos, de Lula nas campanhas eleitorais e do partido antes de ser nomeado AGU e, em 2009, escolhido pelo STF.
Miguel Godoy, advogado e professor de direito constitucional da UnB e da UFPR, afirma que a escolha de Messias, assim como a de outros cotados para a atual vaga, consolida essa percepção.
“O traço mais marcante dessa escolha será o de consolidar um Supremo Tribunal Federal com perfil predominantemente político-jurídico, e não jurídico-político. Ou seja, uma corte composta por figuras cuja trajetória se construiu mais na arena do Executivo e do Legislativo do que nas instituições clássicas do sistema de Justiça, como a magistratura, o Ministério Público, a Defensoria ou a advocacia privada”, diz.
Para além dos históricos e estilos dos cotados, Godoy entende que isso repercutirá na atuação do tribunal a partir da nova composição. “Isso tende a acentuar a vocação do STF como espaço de articulação institucional e mediação política, mais do que como foro de tecnicidade jurídica pura. É uma guinada que reforça o papel do tribunal como ator político de primeiro plano na democracia brasileira”, afirma.
Indicação de Messias no Dia da Consciência Negra frustra quem cobrava diversidade a Lula
BRUNO RIBEIRO,SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A indicação para o STF (Supremo Tribunal Federal) de Jorge Messias, mais um homem branco, em pleno Dia da Consciência Negra, frustrou organizações e ativistas que cobravam o presidente Lula (PT) para ampliar a diversidade da corte.
Enquanto aguarda a aprovação do próximo ministro para completar a formação de 11 magistrados, o tribunal tem atualmente apenas uma mulher, Cármen Lúcia, e uma maioria de homens brancos -Kassio Nunes Marques e Flávio Dino se autodeclaram pardos.
Messias, que ocupará a vaga que pertenceu a Luís Roberto Barroso, é o terceiro homem indicado ao STF por Lula neste terceiro mandato. Antes, o petista já havia indicado Cristiano Zanin e Dino.
Desde que Barroso anunciou que anteciparia sua aposentadoria, organizações que defendem iguais condições de acesso a mulheres e pessoas negras se organizaram em manifestos e atos públicos para pressionar Lula a ingressar na agenda -que é bandeira eleitoral do PT.
Contudo, embora o petista tenha assinado decretos declarando áreas de interesse social para desapropriação de terras de comunidades quilombolas em 14 estados, Lula escolheu a mesma data para a indicação do advogado-geral da União, um auxiliar de confiança, para o Supremo, deixando de atender à reivindicação desses grupos.
“Nós imaginávamos que as forças progressistas iriam corrigir, ou iriam ter uma atitude diferente diante dessa situação [de falta de representatividade]. E a gente, então, de forma entristecida, também de uma forma decepcionante, está verificando que, para alguns tipos de propósitos, esquerda, direita, progressistas, conservadores, eles têm um interesse que supera esses pressupostos dessa democratização [de espaços de comando]”, disse o advogado José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares -o feriado desta quinta é em memória do líder que formou o maior quilombo brasileiro do período da escravidão.
“Perde a República, perde a sociedade, perde o país e perde, sobretudo, o povo brasileiro, que vai deixar de ter uma Suprema Corte representativa, uma Suprema Corte que tenha o compromisso com essa luta da sociedade por mais igualdade, por mais justiça, por mais participação, por mais inclusão e por mais representatividade”, completou.
Os movimentos Coalizão Negra por Direitos e Mulheres Negras Decidem, que já tinham uma marcha convocada para o dia 25, em Brasília, para persuadir Lula a atender à reivindicação, criticaram o petista nas redes sociais e reafirmaram a manifestação.
“A decisão repete um padrão histórico de exclusão. Pela 12ª vez desde a redemocratização, o Brasil se recusa a reconhecer a excelência, a legitimidade e o legado das mulheres negras que sustentam este país”, disse nota divulgada pelo grupo, que também cobrou de Lula o apoio dado a ele na eleição passada.
“Na próxima terça-feira, em Brasília, marcharemos por representação no Poder Judiciário, por mais de nós e por uma Presidência da República que não nos despreze e nos escute”, afirma o texto.
Já os movimentos Fórum Justiça, Plataforma Justa e Themis – Gênero e Justiça divulgaram um documento dizendo que governos “que se dizem progressistas” precisam “transformar seus discursos em práticas, garantindo que as políticas e escolhas institucionais reflitam o compromisso com a igualdade e a representatividade democrática”.
Diante da indicação de Messias, as entidades cobraram de Lula respeito à diversidade para além do STF.
“Cobramos do presidente da República um compromisso formal e transparente com a paridade de gênero e raça nas próximas nomeações, não apenas ao STF, mas também aos demais tribunais superiores e posições de liderança no sistema de Justiça”, diz o texto.
Mendonça é 1º no STF a celebrar indicação de Lula e diz que Messias é nome qualificado
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça elogiou a indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo, cumprimentou o presidente Lula (PT) pela escolha e disse que ajudará o chefe da AGU (Advocacia-Geral da União) no diálogo com senadores.
“Parabenizo o Min. Messias pela indicação ao Supremo. Trata-se de nome qualificado da AGU e que preenche os requisitos constitucionais. Assim, também cumprimento o presidente da República por sua indicação. Messias terá todo o meu apoio no diálogo republicano junto aos Senadores”, escreveu Mendonça em seu perfil no X (ex-Twitter).
Mendonça foi indicado ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2021, mas mantém boa relação com Messias. Os dois são evangélicos e servidores da AGU. O ministro é o primeiro integrante da Suprema Corte a celebrar a indicação de Lula.
O petista oficializou a escolha do chefe da AGU nesta quinta (20) para vaga aberta na corte com a saída de Luís Roberto Barroso, após se reunir com ele no Palácio da Alvorada, em Brasília, pela manhã.
A indicação de Messias, no entanto, contraria uma ala importante da corte, composta pelos ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e Alexandre de Moraes, e também o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Alcolumbre tinha demonstrado preferência pelo nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), um de seus aliados mais próximos, e ficou contrariado com a escolha.
Como a Folha mostrou, a análise no entorno do presidente do Senado é que a relação entre Alcolumbre e Lula fica abalada com a escolha do chefe do Planalto por Messias. O senador foi, ao menos até o momento, um dos principais aliados do governo petista.
A indicação de nomes para vagas na Suprema Corte são prerrogativas da Presidência da República, mas os nomes precisam ser chancelados pelos senadores. Cabe ao Senado aprovar a indicação do presidente para o STF, e para isso é necessário o apoio mínimo de 41 dos 81 senadores, em votação secreta.
Integrantes do governo reconhecem que o nome de Messias enfrenta resistências no Senado, mas dizem acreditar que agora, já oficializada a indicação, começarão as conversas individuais com os parlamentares.

